Digo-vos uma coisa: de santa não tenho nada. Talvez a minha cara pálida e o ar cândido que tenho vos enganasse. Fica esclarecido que não sou santa. Hoje vou falar de duas giras que, de santas também não deviam ter muito. Bernini foi um artista barroco. Destacou-se na escultura pelo seu trabalho exímio. Trabalhou, principalmente, em Roma e no Vaticano. Grande parte das suas obras foram encomendadas por papas.
O Êxtase de Santa Teresa (1652) representa Santa Teresa de Ávila no momento da aparição do anjo. Não, não foi o Gabriel. Esse foi à outra. Já vos explico. A Teresa (permitam-me tratá-la por tu) foi uma freira da ordem carmelita. Sempre foi uma pessoa bastante mística e espiritual. Certo dia ficou doente. A doença alastrou-se durante alguns anos e a pobre santa começou a ter alucinações. Estas traziam consigo o pecado, o afastamento de deus mas também a sua enorme proximidade. As suas visões eram altamente descritivas. Uma delas foi com um anjo. Ela afirmou ter visto um anjo prestes a lançar-lhe uma seta. Aqui está a sua descrição:
Eu vi em sua mão uma longa lança de ouro e, na ponta, o que parecia ser uma pequena chama. Ele parecia para mim estar lançando-a por vezes no meu coração e perfurando minhas entranhas; quando ele a puxava de volta, parecia levá-las junto também, deixando-me inflamada com um grande amor de Deus. A dor era tão grande que me fazia gemer; e, apesar de ser tão avassaladora a doçura desta dor excessiva, não conseguia desejar que ela acabasse...
E então?Parece uma passagem sufocante de sexo, não é?Bernini esculpiu esta ideia com grande virtuosismo. Não a despe, atira-lhe as vestes para cima. Põe-na numa posição de entrega. Põe-lhe um dos pés e uma das mãos para baixo, soltas, livres. Abre-lhe a boca e quase lhe fecha os olhos. E assim está pronta para ser penetrada pela seta de um anjo, cujo sorriso nada tem de inocente.
Em 1971, Bernini começou a esculpir a beata Ludovica Albertoni. Só entrou para a ordem Franciscana depois de ficar viúva. O conhecimento do prazer carnal distingue-a da Santa Teresa. A sua posição revela, também, bastante erotismo. A expressão é semelhante. Aqui é acrescentada uma mão num dos seios. O corpo acaba por estar, igualmente, tenso e relaxado. A sua postura submissa atribui-lhe um carácter solitário.
Se nos apetecer ir mais longe, poderíamos falar de sexo, no primeiro caso e masturbação, no segundo? Talvez. Mas antes, vamos esclarecer algumas coisas.
A História entrega-nos as duas partes. Qualquer católico fundamentalista (ou não) nos poderá dizer que estamos errados. Que, em ambos os casos, é óbvia a comunhão com deus. Que a dor das santas é meramente espiritual. Que a sua entrega é divina e eterna. E que nós, modernos, temos a mania de orgasmar tudo. E eu refuto dizendo o seguinte: naquela época (e na imensidão de épocas anteriores e posteriores) ninguém era indiferente ao sexo. À sua prática e exploração. E disto, Bernini tinha conhecimento. A elevação das almas de ambas corresponde sim à elevação do corpo. Porque eles não se separam. Fazem parte um do outro, quer tenhamos a espiritualidade ou a sensualidade em mente. Como eu sempre digo, cabe-nos a nós interpretar as obras de arte. Conhecer o seu contexto, sempre. Mas dar uso aos olhos e às emoções não custa nada. Olhar para o belo mármore esculpido por Bernini e ver, nos extâses, aquilo que vemos simplesmente.

