Sabem quando começam a ver uma série porque apareceu numa miniatura no site pirata preferido?E foi mesmo naquele momento em que não havia nada para fazer? Foi assim que descobri a série A Young Doctor's Notebook. Feliz e estranhamente juntou Daniel Radcliffe (Harry Potter) e Jon Hamm (Mad Men). São, respectivamente, a versão jovem e a versão mais velha da mesma pessoa. De um médico. Estamos na Rússia e assistimos à vida destes dois homens, que são só um. Viajamos entre 1917 e 1934. Não lhe sabemos o nome nem sabemos o porquê de ter ido, depois de terminar o curso de medicina em Moscovo, para um hospital no meio do nada. Lá encontra apenas duas enfermeiras e um funcionário. Os poucos doentes que atendem, vivem na ilusão de que todas as doenças se tratam com uma simples gota de...algo. O jovem médico terá que testar, na prática, todos os seus conhecimentos. E vai aprender que nem tudo se encontra em enciclopédias e livros. Claro que tudo isto é uma viagem ao passado. Porque nós nos encontramos em 1934, ao lado do seu "eu" mais velho. Um "eu" que revive as experiências anteriores com algum arrependimento. Isto porque foi lá atrás que começou a usar morfina. Este opioide que faz parte de um mundo desesperante. Um vício. E andamos de cá para lá e vice versa na tentativa de entender melhor as suas escolhas. É fácil chegarmos a algumas conclusões quando assistimos aos diversos episódios que aconteceram no hospital no cu de judas. Dou razão aos Mundo Cão quando cantam, na sua música Morfina: (...) que me faça vir na graça do seu picar. Realmente, a morfina alivia a dor física. A emocional também mas depois vira-se contra ela, com o objectivo de a acentuar.
Embora retrate a tragédia russa da época, armando-se de momentos históricos, a série também tem uma enorme dose de comédia. Negra, claro. É fantástico assistir aos momentos "e agora faço o quê?" de um promissor jovem médico. Além disso, faz-nos sentir a dualidade que existe entre "nós" e o "nós" futuro. As conversas que daí resultam. A oposição de duas idades que ora se ajudam, ora se censuram. O abuso de morfina faz-nos perceber o isolamento, o desespero e a falta de autocontrole. São oito episódios que nos cansam por uma boa razão. Que quase nos deixam com os olhos vermelhos, as olheiras roxas e a cara pálida. Como eles. Ou seja, como ele.
