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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Cinco, o quê?

The Notebook 2004
Pois é. Cinco anos. Já? Eu tinha 16 anos. Ele tinha 18. Não vou começar assim. Estava a gozar. Só daqui a umas semanas é que eu e o meu namorado celebramos, oficialmente (haha) cinco anos de namoro. Ai, sinto-me tão parola a escrever isto. Não faz mal. Mas foi, exactamente, há cinco anos que um de nós deu o primeiro passo. Quem? Eu, claro. O meu namorado era o gajo do liceu com ar de junkie inconformado. Eu era a "odeio toda a gente" de eyeliner nos olhos. Ele, sempre solitário. Contava os segundos para sair daquele antro de gente estúpida. Eu, rodeada dos meus amigos. Não sei dizer como e quando comecei a olhar pare ele de outra maneira. Era incrível como conseguia arrepiar-me, mesmo a metros de distância. Sentia a presença dele, mesmo sendo cega. E estava mesmo cega. Não conseguia pensar noutra coisa sem ser naquele par de olhos verdes, ainda mais verdes que os meus. E naquelas repas loiras despenteadas. O meu namorado era o gajo que era largado pelos amigos de carro à porta da escola. Enquanto ouviam psy trance nas alturas. E eu cada vez mais...apaixonada? Comecei a perceber-lhe as rotinas, os amigos, os gostos, as loucuras, o pensamento. Era tão enigmático. E, mesmo assim, eu sentia que o conhecia há anos. Que havia uma espécie de íman entre nós. E havia. Ele nunca me lançou um sinal de fogo. E sabia lá eu se tinha namorada. Também não queria saber. Então, arregacei as mangas e decidi falar-lhe. Tentei, numa ida à wc. Mas ia tendo um ataque mal o vi. Passados alguns dias, numa ida ao teatro, lá estava ele. Era de manhã e ele parecia estar cheio de sono, pronto para entrar e adormecer enquanto toda a gente fingia ver uma peça que nem eu me lembro. Vi em que lugar ficou e fiquei estrategicamente sentada no lugar da fila de trás. 'Ca esperta sou. Cheia de coragem. toquei-lhe delicadamente no ombro. Não reagiu. Outra vez. Nada. Outra vez. Olhou para mim, espantado. Perguntei-lhe se podíamos falar lá fora. Acenou-me que sim. E foi lá fora que vomitei todas as palavras que tinha guardadas. Nem as repito. Imaginem as coisas mais foleiras que se podem dizer a alguém que nem conhecemos. Tinha visto há pouco tempo na Betty Feia que, quando amamos alguém, as pessoas e os objectos à volta ficam cinzentos. Só a pessoa é que fica iluminada e a cores. Assim foi. Ele mal falou. Deu-me, estranhamente, dois beijinhos e cada um seguiu o seu caminho. Ganhei um chupa de iogurte da minha amiga Citrina. Tínhamos feito uma aposta. Passei dias agoniada e com vergonha. Nem sabia o nome dele. Até uma certa terça, dia do teste de História da Arte. Estava eu sentada no liceu, a dar uma volta final aos resumos, quando o moço passa. E nada. E volta a passar. E alguém me diz "Ele está a vir para aqui". Lá fui com ele, ouvir-lhe as palavras. Tresandava a tabaco mas para mim eram flores. A seta que lhe espetei no coração veio directa a mim. E não foi rejeição. Foi correspondência. A partir daí, falámos todos os dias. Ele abriu-se num mundo fantástico que eu desconhecia. Quem era aquela pessoa? Tão melhor. Tão melhor que as pinturas que eu lhe fazia. Tão louco e tão doce. Beijá-lo foi como sentir formigas a passarem nas costas. Quer dizer, não. Isso aconteceu mesmo. E só para isto ficar tudo mais fofinho e especial: o giraço já me tinha posto o olho em cima.  Mas sempre me achou um mirtilo difícil de apanhar. Mal nós sabíamos que, além de nos alcançarmos, nos iríamos aturar mutuamente durante tanto tempo. É uma relação imperfeita feita de momentos perfeitos. O meu namorado é das pessoas mais humanas que conheço. Tem um coração tão grande que até mete nojo. É o meu melhor amigo. É meu irmão. É meu pai. E tem que ser porque eu exijo mimo constante. Por outro lado, sabe ser cruel. Sabe abrir as golas e deixar bem claro que está indignado ou, como ele diz, fodido. Já o fiz sofrer. Já fiz por não o merecer. Fiquei a saber que, além de o merecer, também mereço o seu perdão. Já tive vontade de o matar, de o triturar e de o comer. E depois de o apertar, de o beijar e lhe dar duas estaladas. E depois ele agarra-me e ri-se. E o nosso amor anda sempre assim, descontrolado. Mas não desaparece. Já cresceu. Já é muito sólido. É sério e é bonito. Mas também é espontâneo e anda de mãos dadas com a insanidade. Não somos cão e gato. Somos apenas dois gatos que às vezes ronronam e se aninham. Somos apenas dois gatos que eriçam o pêlo e se aleijam com as garras. Uma coisa é certa, não quero parar de miar ao luar com ele. Nunca. Já marcámos o território um no outro, com uma spayzada de xixi, como gatos exemplares.