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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Ser cega e ver



Perdoem-me o eufemismo. Perdoem-me o paradoxo. Mas são coisas que me custam. Comecemos pelo início. Não é mais fácil mas tem a sua lógica. Estava eu, com 14 anos a ver um filme na sala. O sofá devia estar (e ainda está) a uns dois metros e pouco da televisão. De um momento para o outro, apercebi-me de uma coisa: não estava a conseguir ler as legendas. Semicerrei os olhos e lá li alguma coisa. Fiquei desesperada. Primeiro pensamento: vou usar óculos. Se têm a minha idade ou andam lá perto, sabem que a loucura recente por óculos de ver não existia na altura. Contei à minha mãe e ela não acreditou em mim. Que inocente. Algum tempo depois, lá fui eu a uma consulta com o pior oftalmologista de sempre. Pior, no sentido de ser um antipático do c. Mas cumpriu a sua missão: informar-me, com desdém e indiferença, que eu tinha miopia. Lágrima no canto do olho, logo. Vai ter que usar óculos. O QUÊ? NUNCA, gritei no carro, já. Não sou assim tão maluca para gritar no hospital. E chorei, chorei, chorei. Chorei tanto que cheguei a acreditar que já via bem outra vez. Ah, esqueci-me de dizer que o nojento do médico me aconselhou a não usar lentes de contacto porque a retina ainda estava em desenvolvimento. Dias depois, fui escolher uns óculos. Trouxe os que me ficavam menos mal. Sim, menos. Porque todos me ficavam mal. Todos. Eram de massa preta rectangulares. Não havia as modernices em modo intelectual que há agora. E que também me ficam mal. Passei quase três anos sem os usar. Isto é, só os usava em casa. Não era a vergonha que me movia. Era o facto de olhar para mim com óculos e não me ver. Quer dizer, via-me claro. Mas não me via. Não é preciso pensar muito para chegar à conclusão de que cada vez via pior. Fui a outro oftalmologista, que mantenho até hoje, implorar-lhe que me receitasse lentes de contacto. Disse-me que já as podia usar há imenso tempo. Foi um dos melhores dias da minha vida. Passei meia hora na óptica a fazer a formação como enfiar as lentes nos olhos. No dia seguinte, passei, literalmente, uma hora à frente do espelho para as pôr. Mas consegui. E a partir daí, a miopia estagnou. As lentes não corrigem a miopia mas impedem, por assim dizer, que aumente. Além disso, oferecem um campo de visão muito maior. Quem usa óculos sabe que, para olhar para o lado ou pelo canto do olho, é necessário mover a cabeça. Isso irrita-me. Assim nem conseguia ser observadora como sou. Actualmente, uso as lentes de contacto durante o dia e uso óculos durante a noite, caso esteja em casa. Continuo a odiar ver-me com óculos. Não tenho cara para eles, pronto. Há pessoas que ficam lindas, maravilhosas, brilhantes, cheias de tudo, check it out baby. Eu não. Agora estou à espera de corrigir a miopia de vez. À espera da cirurgia? Não. À espera de ter uns valentes tostões para o fazer. Uns tostões que vão pagar mais ou menos dez minutos de intervenção cirúrgica a laser. Mas vai valer a pena porque vou ver para sempre. Quase para sempre. Embora vos diga uma coisa: às vezes mais vale ver o mundo desfocado. Não dói tanto.