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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Ode ao Joãozinho

Toulouse-Lautrec A la Mie 1891


Ao meu amigo Jony,

Eu e o Joãozinho fomos a um concerto do David Guetta há uns tempos e...gostámos. E temos vergonha de dizer que gostámos porque somos duas bestas que não querem admitir que se tornou um guilty pleasure. O Joãozinho esqueceu-se do compasso em casa no dia do exame de geometria. O Joãozinho já limpou vomitado meu das sapatilhas. O Joãozinho tinha um segredo e contou-mo. Assim como fez com todos os outros segredos. Se as pessoas ouvissem as nossas conversas, declaravam-nos doentes mentais. Se os tempos fossem outros, íamos directos para a fogueira. O Joãozinho andava sozinho. Sentou-se ao meu lado. Eu sentei-me ao lado dele mas, na aula seguinte, fui para a frente. O Joãozinho não tinha barba. Sentia-se triste. Agora exibe-a. O Joãozinho perdeu o inho. O João foi os meus olhos. Foi o meu magusto sem castanhas. Foi uma tela em branco que ajudei a pintar. Se foi uma escultura, o mérito é dele. O João tinha frio e aquecia as mãos no aquecedor. Comigo. O João foi o meu único fantasma que me aturou quando todos os fantasmas estavam longe. O João parecia um zombie pela manhã. Eu também. O João tinha umas calças de bombazine castanhas...e não se lembra. O João quase foi cientista mas agora é artista. O João e eu criámos um dicionário. Uma língua só nossa. Códigos indecifráveis que ainda hoje usamos. O João caiu da falésia. Voltou. Ajudei a curá-lo. Que remédio. O João soltou-se. Ainda bem. Eu e o João ficávamos sentados, em qualquer lado, horas e horas. O João, há dois dias, disse-me: Às vezes, era só preciso estarmos ali, juntos, a ver o mundo passar, mas cagámos em tudo, construimo-nos. Não havia ninguém no mundo mais tímido que nós. Mas também não havia ninguém mais forte, mais corajoso, mais bota prá frente. Eu, o João e as outras cabras andávamos quase 1km para ter quarenta e cinco minutos de educação física. Parávamos no hospital para beber leite. Nem vou explicar. Chegávamos ao ginásio. Era podre e com cheiro a madeira, cheiro a suor. E depois insultos trocados entre todos. Imaginem-me a mim e ao João a jogar futebol. Não. Não era bonito de se ver. O João e eu comíamos na cantina. Caso contrário, o almoço seria pizza no tasco ou panike no quiosque. O João foi ingrato. Eu desculpei-o. Escreveu-me uma carta. Tão pirosa. O Joãozinho, o João, o João Turma, o João R. , o João Ferrão e o Jony 91 são apenas uma pessoa. Uma daquelas que eu mais gosto no planeta. Embora nós tenhamos um planeta só nosso. Eu e o João somos como aqueles casais que já não fazem sexo. Já nada nos surpreende. Nada nos espanta. Nada nos atinge. Contamos tudo um ao outro. Tudo, nem que demore algum tempo. E sem papas na língua. Não há meias conversas. Ou é ou não é. Continuamos a fazer asneiras. A voltar a fazer asneiras. Há sempre aceitação. Nunca nos vão ver a apontar o dedo um ao outro. É uma amizade livre de julgamentos. Tudo é permitido. Só não vale ter arrependimentos.