Hoje é o meu aniversário. Daqui a
um ano, exactamente, vai ser outra vez. Digo isto porque espero que este ano
(que, para mim, começa agora) corra bem. E espero que, estar numa idade ímpar
não me dê má sorte. Tenho essa superstição com os números. Dou mais valor aos
números pares. Talvez não faça sentido nenhum e, se avaliar, com precisão, as
minhas idades, talvez me aperceba que os ímpares me trazem melhores lembranças.
Para vos ser sincera, o meu último ano foi uma m&#%@. Das grandes. Deixei
de ser um mirtilo para ser outra coisa qualquer. Olhava-me ao espelho e
continuava intacta. Mas, por dentro, os meus espelhos estavam completamente
estilhaçados. E as pequenas peças que faziam parte de mim tornaram-se afiadas.
Feriam. Mas isso importa tanto como a mosca que ainda agora passou por mim.
Apesar de ser um dia especial, há
coisas para fazer. Os trabalhos da faculdade são muito egoístas comigo. Querem
lá eles saber se hoje me apetece celebrar. Mas vou contrariá-los porque quem
manda sou eu. E se não os fizer, vou continuar a mandar. Felizmente, a partir
de sexta, tenho uma semana de férias para me dedicar inteiramente a eles. Aqui
estou eu, a falar de trabalho quando devia falar de mim.
Tenho 21 anos e chamo-me Isa
Mirtilo e isto não é uma reunião dos desamparados. Tenho os olhos verdes e o
cabelo mania que o pinto de vermelho.
A minha cara é branca como a neve mas não sou uma princesa. Vivo com a cabeça
no meu mundo e com os pés na terra. Concilio o mundo objectivo com o
subjectivo. Vivo de lá para cá para nunca me perder. Sou mal disposta e insensível
mas também sou a melhor pessoa do mundo (hoje posso vangloriar-me, só hoje
prometo). O meu signo é touro. Não faço a mínima ideia do que isso possa
significar. Mas uma coisa sei: estou com força para levar tudo à frente.
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| Eugène Grasset Avril 1986 |

