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terça-feira, 16 de junho de 2015

Estou cansada

Renoir Woman with a cat 1875
As aulas já acabaram. Que alívio. Nem por isso. O semestre ainda vai viver durante as próximas duas semanas. Ao contrário do meu amigo Snow, que talvez já esteja cadavérico em 2016. Deixemos essa tristeza de lado e passemos para outra: estou cansada. Aquele cansaço que já está entranhado nos ossos. Aquele cansaço que nos leva a dizer, perante as mil e uma coisas ainda por fazer, fuck this shit. Mas não tenho essa coragem. Sou uma pessoa bastante organizada mas a preguiça adora ser a minha melhor amiga. O que é que a faculdade me ensinou? Que por mais trabalho que tenhamos feito, temos outro tanto para fazer. Nada é suficiente. A não ser que queiramos ser suficientes. Mas queremos ser bons, certo? Muito bons também não dá. Não nos deixam. Já está muita coisa feita. Aquilo que falta, confesso-vos: deixei mesmo para última. Precisei de me concentrar em cada coisa de cada vez. Caso contrário, os resultados não seriam os mesmos e ia ficar com a lágrima no canto do olho. Agora faltam-me, ao todo, 12 dias para mergulhar num estado profundo de concentração. Como já não tenho que definir prioridades, basta-me atingir os objectivos aos quais me propus. Ai, que palavras tão finas para aquilo que tenho que fazer. Estou cansada. Estou cansada. Não estou nada. Não posso estar. Estou a desesperar. E não. A minha mão vai ter que arranjar vontade própria. Tenho que a fazer divagar pela imensidão de folhas brancas que me aguardam. Riscos e rabiscos que me conduzam a algum lado. Tenho tempo. O tempo é essencial nesta etapa. Alguém me ajude a dizer não à procrastinação. Não. Não. Não. Três vezes. Tenho que limpar a casa para depois me ir embora. Não! Olha o trabalho. Estava a brincar. Mas o saco do aspirador tem que ser trocado. E se fosses lavar os pincéis? Olha os cocós na areia da gata. Se não fosses burra, já tinhas feito render ao vídeo. Calhava mesmo bem um prato de comfort food. Pois era. E um relatório feito também. Levanto-me subtilmente e vou à varanda dar um berro. Ninguém me ouve, cá no alto da montanha. Da cidade, quero dizer. Não fez eco. Talvez o eco more apenas na minha cabeça e se transforme em divagações. Estou eu e a gata. Estou cansada. Mas não posso estar. Não agora. Não no fim de uma meta tão importante para mim. A partir de hoje, tenho as mangas arregaçadas. Fazer a massa. Cozer o pão. Prová-lo vai ser muito bom. Trabalho feito. E férias. Merecidas. Done. Miau.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Não estou a matar ninguém


Hoje vou passar grande parte do dia a editar som para um projecto da faculdade. Quem me tem acompanhado, já deve ter percebido que até sou uma rapariga fofinha. Mas também tenho alguns parafusos a menos. Se adoro ver vídeos de gatinhos no youtube, também adoro berros, gemidos e afins. Uma das coisas que me dá gozo (e faz parte do meu trabalho) é criar sons. E, desta vez, os sons passam por tudo aquilo que é mórbido, aterrorizante, inquietante e abafador. Não é a primeira vez que o faço. Por algum motivo, os meus projectos vão sempre dar aí. Tenho o cérebro perturbado. Mas adoro! Estou a fazer um mini filme abstracto onde a maior parte das imagens são found footage. Como tenho imagens harmoniosas, decidi contrastar o visual com o auditivo. É algo que funciona muito bem. Atribuir novos sentidos às coisas, às imagens. Se tenho um casal a beijar-se numa paisagem de flores, então vou fazê-los sangrar dos ouvidos com gritos intensos de dor. Acreditem, não é estranho. Basta saber que, se lhes acoplarmos um canto de passarinhos, o casal aparenta ser feliz. E não é isso que queremos. São contrastes levados aos extremo. 

Sabemos que os sons dos filmes são criados para nos guiar. Para nos levar ao caminho exacto das nossas emoções. Eles sabem como fazer-nos sentir. Mas se estamos a ver uma laranja e a ouvir o som de um relógio, não bate a bota com a perdigota. Mas pode bater. É aqui que entra o nosso lado crítico. Agora já ninguém nos conduz. Vamos sozinhos e muitas vezes não queremos dar um passo à frente. Muitas vezes, não sabemos o que sentir porque ninguém nos pediu (obrigou) para sentir. Há que saber estimular as emoções. Há que saber prolongar o pensamento para onde nunca se atreveu a ir. Deixem-no ir. Não precisamos de ciências exactas a toda a hora. É isso que faço ao trabalhar com som. Deixo-me ir, mesmo que saiba o que estou a fazer. Portanto, hoje a minha casa vai vibrar com sons literalmente horríveis. A probabilidade de algum vizinho estar a ler isto é inferior a zero. Mas fica o aviso. Afinal, qual é o mal? Não sou eu que às duas da manhã tenho o "teru" das notificações do facebook nas alturas. Nem sou eu que arrasto cadeiras de madrugada como se de uma fantasia sexual se tratasse. Ah, e também não sou eu que dou um berro às oito da manhã para que o outro vizinho, que decidiu usar um berbequim, se cale. Só vantagens. Só perdoo o choro do bebé e o miar do gato.