É com esta frase que começa o livro Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra (2002) do escritor Mia Couto.
Na morte, a vida torna-se ausente. Mas terá isso alguma importância? Será que esse momento marcado e datado na história das pessoas, é assim tão decisivo? Ou será apenas um sinal de vida? Todos carregamos uma cicatriz. Raramente nos lembramos dela. Os umbigos conseguiram ganhar um estatuto no nosso corpo. São feios e horríveis mas, mesmo assim, passam despercebidos. Simplesmente porque escolhemos, inconscientemente, não os ver. Fingimos que não estão lá porque lá pertencem. Se eles, de repente, saíssem do seu lugar anatómico, a nossa barriga iria perder toda a expressividade. Iria perder uma boca ou um olho, conforme olharmos para ele. Iria perder uma cavidade que nada lhe oferece e nada lhe retira. Não temos memória do nosso nascimento. Nem do parto de quem nos pariu. Ainda bem. Carregamos esta cicatriz sem a memória do nosso cordão umbilical. Temos uma marca de vida. De morte. Carregamos connosco uma viagem. Uma viagem com bilhete de ida apenas. Ida para a morte. Mas, tal como o umbigo, a morte não é assim tão má. Afasta-se da vida. Corta-se de tudo. Desprende-se de tantos cordões. Depois, uma ferida. Depois, uma cicatriz. Depois, a inconsciência de ter sido algo. Alguém. Um vazio com forma. Uma forma vazia e cheia de memórias. A morte passa a ser um momento de acontecimentos passados. A morte dilui-se. Olha-se ao espelho e vê, no seu umbigo, uma lembrança. Quem e aquilo que morre passa a ser apenas uma marca de quem/daquilo que foi. Nós, vivos, sabemos disso.