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sábado, 9 de maio de 2015

O umbigo


É com esta frase que começa o livro Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra (2002) do escritor Mia Couto
Na morte, a vida torna-se ausente. Mas terá isso alguma importância? Será que esse momento marcado e datado na história das pessoas, é assim tão decisivo? Ou será apenas um sinal de vida? Todos carregamos uma cicatriz. Raramente nos lembramos dela. Os umbigos conseguiram ganhar um estatuto no nosso corpo. São feios e horríveis mas, mesmo assim, passam despercebidos. Simplesmente porque escolhemos, inconscientemente, não os ver. Fingimos que não estão lá porque lá pertencem. Se eles, de repente, saíssem do seu lugar anatómico, a nossa barriga iria perder toda a expressividade. Iria perder uma boca ou um olho, conforme olharmos para ele. Iria perder uma cavidade que nada lhe oferece e nada lhe retira. Não temos memória do nosso nascimento. Nem do parto de quem nos pariu. Ainda bem. Carregamos esta cicatriz sem a memória do nosso cordão umbilical. Temos uma marca de vida. De morte. Carregamos connosco uma viagem. Uma viagem com bilhete de ida apenas. Ida para a morte. Mas, tal como o umbigo, a morte não é assim tão má. Afasta-se da vida. Corta-se de tudo. Desprende-se de tantos cordões. Depois, uma ferida. Depois, uma cicatriz. Depois, a inconsciência de ter sido algo. Alguém. Um vazio com forma. Uma forma vazia e cheia de memórias. A morte passa a ser um momento de acontecimentos passados. A morte dilui-se. Olha-se ao espelho e vê, no seu umbigo, uma lembrança. Quem e aquilo que morre passa a ser apenas uma marca de quem/daquilo que foi. Nós, vivos, sabemos disso.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Allan Poe

Histórias Extraordinárias reúne contos, entre 1833 e 1945, de Edgar Allan Poe. Este génio atormentado e invulgar, é hoje reconhecido como o grande percursor dos contos policiais, do terror gótico e da literatura fantástica. Todas as personagens fazem parte do próprio Allan Poe. Todas elas são igualmente doentias e apaixonantes. Assim sendo, a personagem de Poe, sempre a mesma, é capaz de transmitir uma série de sentimentos que, por si só, não existem. Eles dependem do sobrenatural, da razão, da natureza, do absurdo, do horrível, da loucura, do homem. Penso que esta personagem está interiorizada em cada um de nós. Chegamos a viver situações extremas que nos levam a conhecer o outro lado da mente. Tal como Poe, o alcoólico e louco, também nós somos capazes de rir com a dor e chorar lágrimas que não partem do coração. Aconselho a leitura destes contos pela tentativa de atingir a mente perturbada do autor, visto que é possível comprovar os seus traços íntimos. São mais do que simples histórias assombrosas. Eles retratam também experiências do ser humano, acompanhado pela morte e por uma forte e violenta imaginação. Apesar de, muitas vezes, nos causarem arrepios, são uma grande fonte de inspiração e energia. Celebremos a loucura!

Os homens chamaram-me louco; mas está ainda por estabelecer se a loucura é ou não a mais suprema inteligência, se muito do que é glorioso, se tudo o que é profundo não provém de uma enfermidade do pensamento - de modos do espírito exaltados em detrimento do intelecto geral. 



sexta-feira, 1 de maio de 2015

Dia do Trabalhador

O primeiro de Maio só foi celebrado, em Portugal, depois do 25 de Abril. Não é novidade nenhuma. Porque é que havíamos de ter um feriado, dedicado a nós, trabalhadores, em plena ditadura? Ainda se fosse dum santo qualquer. Agora assim? Não, não meninos. Toca a trabalhar. Estamos em 2015. Hoje é feriado numa imensidão de países. Se é um bom sinal e resultado de conquistas?Sim, é. Mas também é o dia em que multidões se juntam e gritam na rua. Manifestam. Cá em Portugal, isso também acontece. Mas, depois, vamos lá embora que já se faz tarde. Vamos lá embora porque vai dar a bola ou porque o jantar não está feito. Ou porque a vizinha me pode ver e depois o que irá pensar?Que sou de esquerda?Não, não. Pessoas assim cansam-me. Mas passam-me ao lado. O pior são os políticos. Sem entrar num cliché frustrado e velho restelense, só posso dizer que o Eça estava certo. Não digo que tenha sido um visionário. As coisas é que não mudam muito. E as fraldas cheiram tão mal!


domingo, 19 de abril de 2015

Dalí | Daqui

Há pessoas que se esforçam demasiado para ser perfeitas. Para quê? Ser perfeito deve ser tão aborrecido. Saber tudo, ser tudo e ter tudo. Se fossemos perfeitos, deixaríamos de querer tudo. Ou seja, os nossos objectivos e ambições deixariam de existir. A nossa esperança? Inútil. O nosso esforço? Não há. O nosso receio? O que é isso? A nossa dor? Não sentimos. Parece que ser perfeito iria ser bem pior do que vivermos carregados com os nossos defeitos e imperfeições. Só assim conseguimos dar importância às qualidades. Só assim os outros são capazes de gostar de nós. Porquê? Porque sofremos do mesmo mal. Somos azeite. Somos água. Eles não se misturam. Mas nós, no meio desses pólos, lá vamos conseguindo misturá-los. Não se esforcem para ser perfeitos. É inalcançável


quarta-feira, 15 de abril de 2015

Close-up. Long-shot

Chaplin faz uma comparação entre as perspectivas da vida e dois termos cinematográficos relativos ao enquadramento da câmara. Close-up. Long-shot. A tradução para português não nos permite fazer essa associação de modo objectivo. Mas conseguimos perceber o sentido da expressão. Com a distância, quer física ou temporal, os problemas que nos pareciam tão importantes, diminuem. Eram-nos próximos, abafavam-nos a cara e o peito. Respirar, nem pensar. Um sufoco constante. Depois, um sopro. Um movimento. Um afastamento. Ai, como as coisas parecem tão pequenas agora!Como temos os olhos tão abertos. Como conseguimos ter uma visão geral das coisas sem dar importância imerecida aos pormenores. É tão bom olhar lá para o fundoooo e saber que o nosso sofrimento é, agora, uma comédia. 

"Life is a tragedy when seen in close-up but a comedy in long-shot"

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Os erros

Somos bebés. Começamos a andar. Ou a tentar andar. Uma coisa é certa: vamos cair. Mas não faz mal porque alguém nos vai levantar e incentivar de novo. Isto repete-se tantas vezes que, com uma certa idade, achamos ridículo ter que aprender a andar. Vamos fazendo asneiras e levamos no rabo. A inocência perdoa essas coisas. Perdemo-nos na matemática mas há sempre solução. Depois vamos errando a sério. Porque errar é fácil demais. Porque as escolhas certas nem sempre caem do céu. E nem sempre existem. Errar é humano. Pois é. Costuma-se dizer que aprendemos com os erros. Nem sempre. Costuma-se dizer que, se repetirmos um erro, somos fracos (ou burros). Nem sempre um erro permite a descoberta de algo melhor, correcto. Nem sempre o correcto é o mais correcto. O erro é um estado primário repetível até ao infinito. O que acontece é que, muitas vezes, esse erro não permite várias experiências. Então, partimos do princípio que aprendemos com ele. E aprendemos. Conforme o contexto, vamos aprendendo que há erros que não merecem ser prolongados. Tanto pela sua causa como pela sua consequência.

Mas o erro também aparece noutros cenários. Quando temos um objectivo bom demais para ser esquecido. E aí, ele merece ser repetido as vezes necessárias. Podemos não chegar a lado nenhum. Mas saber que percorremos um percurso inteiro, às cambalhotas e aos trambolhões, torna-se muito mais importante. Se conseguirmos uma resposta final, óptimo. Caso contrário, falhámos melhor...


Forever

Foi dito que um homem não está morto enquanto o seu nome ainda é falado. Que só morremos, de facto, quando desaparecemos da memória daqueles que nos amaram. Significa que um grande artista nunca morre. Desde que os seus livros sejam lidos, as suas pinturas admiradas, que as músicas sejam cantadas, podemos viver eternamente.

Dr. Henry Morgan, ep.9 6.A.M. FOREVER

Só assim, com a persistência da memória, temos acesso a grandes obras. Conhecemos a sua importância na época em que foram produzidas. Contudo, têm-nos assombrado, no bom sentido, durante séculos. Por vezes, parece que nos são introduzidas ainda no útero. Não nos conseguimos separar de uma música que tem o dobro da nossa idade, de uma pintura que não nos diz nada e dela tanto gostamos, de um livro que não foi escrito para nós e ai, encaixamos tão bem na história. Ou ainda, de um filme que sem palavras, nos diz tanto. São heranças. E por causa dessas não se discute nem os tios andam à pancada.


Infelizmente, com as pessoas que realmente amamos já não funciona assim. Também permanecem na memória. Ainda mais. Mas a dor causada pela falta da sua presença física é incurável. Eu não sei. Mas contaram-me…


segunda-feira, 6 de abril de 2015

That 70´s Show

That 70´s Show é (ou foi) uma das melhores séries de comédia que já vi até hoje. Esteve no ar durante 8 anos. Não a acompanhei nessa altura. Vi as oito temporadas no espaço de um ano há uns tempos. É incrivelmente viciante. É também a melhor aproximação relativamente ao crescimento de seis adolescentes. Conta a sua história, as suas aventuras e os seus problemas à medida que crescem. Mas nunca de um modo dramático ou censurador. Recomendo!

Hoje irritei-me um bocadinho portanto deixo-vos com um ensinamento da série:


domingo, 5 de abril de 2015

Os Loucos estão certos

A música "Os Loucos estão certos", dos Diabo na Cruz, é uma das minhas preferidas. As críticas à sociedade são bem directas para quem as quiser entender.  Os loucos estão certos, é preciso ouvi-los
Então "ouçam" o que tenho a dizer.

Vou aproveitar este dia religioso e esperançoso, para tanta gente, para fazer um apelo. Há maldade em todo o lado. Quem tiver os olhos abertos, peço para que tenham também a língua afiada. Fico por aqui por ser um tema tão sensível.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Black Sails

Por mais que a ideia que tenham acerca de nós seja errada, não interessa. Corrijo: não interessa se não gostarmos da pessoa em questão. Há jogos que existem para ser jogados fazendo uso da mentira e da batota. Às vezes ganhamos mais em ser um monstro para alguém. E se formos inteligentes o suficiente, somos capazes de nos surpreender a nós mesmos, erguendo uma besta que ninguém vai querer enfrentar. São tempos difíceis para sermos fofinhos. Ergamos o pirata que há em nós!