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terça-feira, 19 de maio de 2015

Quem é o Zé?

Os homens são todos Zé. C'andas a fazer, Zé? Onde foste, Zé? Com quem estás, Zé? Ó Zé, cala-te. Ás vezes, eu também sou o Zé. Ou a Zeza. Gostava de saber o motivo misterioso pelo qual isto acontece. Será que perdemos os nossos nomes? Não. Lembro-me de um dia um amigo me dizer: Olha, fui lá com o Zé. Eu, que gosto de saber a vida de toda a gente, perguntei: Quem é o Zé? Explicou-me quem era a criatura, detalhadamente. Anos mais tarde, quando lhe perguntei pelo Zé, respondeu-me: Quem é o Zé? Foi aí que percebi a dimensão dos Zés. Pelos vistos, somos todos Zés. Depois, também há os Chicos e as Chicas. Decidimos tratar-nos assim. Conhecemos tão bem os nomes daqueles que nos são próximos, que já não aguentamos mais dizê-los. Torna-se aborrecido. Monótono. Então, começamos a inventar nomes, alcunhas, elogios e ofensas às pessoas da nossa vida. Claro que isto só acontece em círculos. E com confiança e amor. E humor. Muito e negro. Do mais escuro que houver. Negro mais negro não há. Porquê? Porque raramente são palavras bonitas. Houve uma altura, na famosa adolescência, em que eu e os meus amigos adorávamos adjectivar-nos com nomes ofensivos. Não vou mentir, pronto. Isso ainda acontece. Às vezes, são coisas piores. O vocativo dos nossos diálogos nunca é fofinho. Poder tratar mal quem tanto gostamos é maravilhoso. Chega uma altura em que chamar alguém por um nome que não é o seu, acontece inconscientemente. Substitui aquilo que consideramos normal. Alimenta o afecto. Não acontece com mais ninguém. Chegamos a uma conclusão: só é possível insultar quem conhecemos bem. Nem sequer existe a ideia de perdão porque não há nada a perdoar. Basta aceitar. Basta aceitar que somos uma cabra, uma porca, um cagão, um atrasado, etc. Não ofende. Não magoa. Não dói. Torna a amizade especial e eterna. Eles que o digam. Os Zés que o confirmem.


Charlie Chaplin Behind the Screen 1916