Cheiros. O meu nariz sofre de sensibilidade extrema. O meu olfacto nunca me obedece. Obriga-me a cheirar coisas que não quero cheirar. Ainda o cheiro está a duzentos metros e eu já estou com moléculas odoríferas alapadas nas narinas. Nem os pêlos me conseguem ajudar. Se se tratar de um odor primaveril e intenso, segue-se um sequência de "atchins". Os olhos lacrimejam, o ranho aumenta e os lenços de papel diminuem. Caso de trate de odores nojentos e repugnantes, nem a boca/garganta se salva. Tapar o nariz não acalma a vontade de vomitar. O que não é, de todo, a melhor solução. Mais cheiro?Não, por favor. Assim sendo, declaro guerra às mil e quinhentas árvores com florzinhas cintilantes, às oliveiras, às flores giras nos canteiros, aos perfumes insuportáveis nos elevadores, aos cremes de corpo que deixam rasto, aos sprays, ao fumo de lareira, ao fumo de tabaco e ao ar condicionado. Declaro guerra ao cocó de cão no chão, às ervas daninhas mijadas, ao cheiro não tomo banho há anos no metro, às wc's públicas, aos restaurantes que só cozinham peixe frito e sobretudo, sobre mesmo tudo, ao xixi de canto com graffiti do símbolo da anarquia.
É dos cheiros mais reconhecidos na minha base de dados. Há, em todas as cidades, vilas e aldeias, um canto assim. Um canto, uma esquina, uma linha onde dois planos decidiram intersectar-se, que cheira a mijo. Podemos facilmente imaginar um ser humano a marcar, ali, o seu território. O xixi de canto não escolhe sexos. Pode ser um homem, com o bicho de fora. Este tem, normalmente, uma mão apoiada na parede. A outra, usa-a para fazer desenhos com o seu líquido divino. Pode ser uma mulher, com o rabo ao léu. Esta encharca, normalmente, os pés com mijo. Se tiver vestido calças ou collants, a tarefa complica-se. O equilíbrio é posto à prova. Pés bem assentes enquanto as mãos repuxam tudo o que é tecido. Mas calma. Vamos continuar com a minha teoria. Depois desta descrição visual, falemos de símbolos. Os cantos podem ter variadíssimas tags, rabiscos ou amoteh pipa 25/02/2010. Mas aquilo que mais têm, em quantidade, são os "ás" revoltados da anarquia. Imaginem o cenário bélico: mijada expressiva que desliza pela parede e escorre pelo chão, símbolo mal ou bem feito da anarquia, uma ou duas ervas daninhas daquelas que cheiram mal e, finalmente, o conhecido fuck the system. Acaba por se revelar algo bastante poético. Um manifesto. Um acto de revolta. Um vou mijar na vossa cara. Um poema visual que vive do nojo. Quando vos cheirar a xixi de canto, reparem se algum pseudo anarquista ali passou. E já agora, não pratiquem o xixi de canto mesmo que a anarquia seja a ordem!









