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| René Magritte The Pilgrim 1967 |
Costuma-se dizer que a nossa cara é o nosso cartão de visita. Aceito isso até um certo ponto. Não podemos julgar ninguém por nos julgar num primeiro momento. O nosso rosto é, de facto, a primeira informação que as pessoas guardam. Examinam-nos ao pormenor antes de abrirmos a boca. Podemos passar no teste. Podemos chumbar. E isso deve-se apenas à nossa aparência. As pessoas decidem se querem gostar de nós. Ou não. Se esse factor começar a roçar o preconceito, então esqueçam. Então já não concordo com nada disso. Acredito que o poder da palavra seja bem maior que uma cara feia ou bonita. As relações vão-se desenvolvendo. E, se forem humanas e verdadeiras, haverá um momento em que não importa se somos o antes ou o depois da Fiona. Aquilo que somos despidos de roupa e pele acaba por ser a única coisa que guia os outros. Isto resulta muito bem com as amizades. Quem quer amigos não os deseja assim ou assado. Penso eu. Até porque um amigo, mais cedo ou mais tarde, nos vai dizer coisas horríveis acerca do nosso aspecto. Se o nosso orgulho não for cocó, vamos adorar sabê-las. Mas não vou ser hipócrita. Acho que isso não funciona quando estamos, supostamente, apaixonados por alguém que não conhecemos. Não acho que seja, de todo, fútil dizer que começamos a gostar de alguém porque é bonito. Esse bonito é o nosso bonito. Não é uma lei universal. Nunca será. Quem feio ama, bonito o acha. É o que a minha avó costuma dizer. Não falo daqueles casos em que as pessoas se conhecem há séculos e descobrem que se amam. Isso não tem nada a ver com beleza. Falo de mim, por exemplo. Que não conhecia o meu futuro namorado. Se não o achasse o pedaço de xixa mais belo do universo, nunca teria falado com ele. Tive sorte. O lado de dentro revelou-se igual ao de fora. Ou melhor. Irritam-me as pessoas que não conseguem admitir uma coisa tão simples como um estímulo. Chemistry works.
Mas já me perdi. Não era sobre isso que queria falar. Queria falar da minha experiência em relação a alguns blogs. Não devo ser a única que, quando entra num blog faceless (como o meu), se põe a imaginar como será a pessoa que vive na sombra de tantas palavras. Acho fascinante pôr a nossa imaginação à prova. Começar a criar essas pessoas na nossa mente apenas pelas pequenas pistas que nos vão dando. O que veste, o que come, o que gosta, o que sente, etc. Acaba por ser um jogo onde somos obrigados a criar personagens. Só que estas são reais. Somos, por natureza, seres curiosos. Portanto vivemos na expectativa de lhes conhecer o rosto. Mas não é, no meu caso, para poder elevar aos céus ou criticar como um diabo a pessoa em questão. Longe disso. Serve apenas como comparação entre aquilo que imaginamos e aquilo que existe e é real. As pessoas sem cara não são apenas as que vivem enterradas em segredos e frustrações. As pessoas sem cara são, muitas vezes, pessoas cansadas de a ter. Ou, contrariamente, pessoas que a desejam ter. As pessoas sem cara podem, um dia, desenhar uma.