Este dia devia ser todos os dias. Aconselho toda a gente a ler, seja o que for. Começar um livro e devorá-lo. No fim, queremos mais. Também pode ser um vício! Mas este é muito bom. Hoje deixo aqui quatro sugestões que nada têm a ver umas com as outras. São livros diferentes uns dos outros, para cada tipo de pessoa (leitura) e para cada mergulho nas palavras e frases. São para quem os quiser ler. Às vezes, nem é preciso gostar. Basta ler. Só assim conseguimos fazer as nossas escolhas.
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quinta-feira, 23 de abril de 2015
segunda-feira, 20 de abril de 2015
Mansfield Park
Mansfield Park, 1814. Podia falar de qualquer um dos
livros da Jane Austen. Escolhi este por ser o mais odiado por alguns leitores. Porquê? Por não ser a típica heroína austeana. Além disso, a história demora mais
tempo a chegar a algum lado. Embora isto seja verdade, nunca percebi em que
sentido é que o livro perde alguma coisa. Fanny Price, ainda criança, vai viver
com os seus tios para Mansfield Park. Isto acontece porque os seus pais, com
mais filhos, não conseguem suportar a sua educação. Longe dos irmãos e dos
pais, passa a conviver com os seus primos e tios. Cresce e aprende com eles. Tem
uma educação semelhante mas, ainda assim, é inferiorizada. Afinal, os seus
familiares têm dinheiro. Ela não. Enquanto cresce, ao longo dos anos, tem como
obrigação ajudar as tias nas tarefas domésticas. Isto é, fazer por elas. As
suas primas vivem num mundo paralelo e fútil. Um dos primos tem constantemente
um comportamento boémio. O outro, santo. Muita água correu até ao final do
livro. Só aí encontramos respostas. Jane Austen criou personagens muito reais
tendo em conta a sua época. Aborda a escravatura de um modo subtil. As críticas
à sociedade inglesa, à semelhança dos outros livros, são bastante óbvias.
Fanny Price é uma rapariga tímida,
frágil e submissa. Nunca aparece na linha da frente. Não é uma Elizabeth Bennet (Orgulho e Preconceito 1813).
Não sai a correr de casa. Não ignora as tarefas que lhe são destinadas. Não
opina, em voz alta, acerca do comportamento alheio. Não muita coisa. Vive nos seus pensamentos. É muito observadora e
perspicaz. Tem a capacidade de perceber, desde logo, o bom ou mau carácter das
pessoas. Vemos que ela não se engana. É muito ligada à tradição. Para ela, dar um passo à frente é, muitas vezes, um sacrifício. Sempre gostei da Fanny
mas sempre desejei que ela se passasse da
cabeça. Sintam-se inspirados!
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| Mansfield Park, filme de 1999 (trailer) |
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Pi = 3,14
Se a morte anda tão chegada à vida não é por uma necessidade biológica — é por ciúme. A vida é tão linda que a morte se apaixonou por ela, e é um amor ciumento, possessivo, que tenta controlar o que pode. Mas a vida escapa a esse controle com a maior facilidade, perdendo apenas uma coisinha ou outra sem grande importância e, para ela, a tristeza não passa de uma sombra passageira de uma nuvem.
A Vida de Pi, Yann Martel 2001
A Vida de Pi (Life of Pi). Recomendo, de igual modo, o livro e o filme (Ang Lee, 2012). Primeiro, li o livro. Fiquei com vontade de ver o filme mas pensei logo que podia ser uma desilusão. Que toda a riqueza do livro iria desvanecer. Neste caso, essa ideia é totalmente errada. Claro que um livro é um livro. Bem sei. Mas um filme também é um filme. E estes dois vivem, na minha opinião, muito um do outro. Porque são igualmente ricos em imagens, descrições e sentimentos. O filme acaba por ser uma reinterpretação das imagens que já tinha lido. Mas também acrescenta elementos visuais que, por algum motivo, não consegui imaginar. Um rapaz que sobrevive a um naufrágio e, no barco salva-vidas, tem que partilhar o pouco espaço que tem com um tigre. Parece ridículo e infantil. Mas não é. Ensina-nos imenso acerca da condição humana. Da sobrevivência, da convivência, do desespero e, sobretudo, da imaginação.
Então a morte é apaixonada pela vida. E a maneira que encontrou para a amar possessivamente, foi desafiá-la diariamente. Colocar-lhe obstáculos. Para que a vida não sobreviva. Para que a vida dê lugar à morte. Há amores assim. Amores em que se torna impossível conviver. Em que alguém tem que sair para o outro ficar. Em que o um vive para si mesmo, sem contar que o resultado sejam dois. É isso que a morte faz. Quer controlar, ser um todo, ser a única e ser completa. Já a vida, perdendo muitas batalhas, é capaz de se erguer vezes sem conta. Relativiza os problemas. Quando sofre, sofre a sério. Mas, a seguir, o sorriso já lhe ocupa a cara toda. Somos nós. Temos essa capacidade de enfrentar a morte porque não, ela não é mais forte que nós. E, até quando nos vencer, vai ser mais fraca. Porque a vida continua. A morte não.
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| créditos imagem : alternativemovieposters.com |
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domingo, 12 de abril de 2015
1984
1984 George Orwell, 1949. E se vivêssemos
num mundo onde tudo o que fazemos é controlado? Um mundo onde a tecnologia e o
totalitarismo dos partidos permitissem e incentivassem uma vigilância permanente.
A distopia de Orwell aborda essas questões. Cria uma sociedade no ano de 1984
controlada por um regime totalitário. Os cidadãos eram manipulados através da
língua. Foi criada a Novilíngua que, estando ainda em construção, tinha como
principal objectivo apagar do vocabulário todas as palavras que se opusessem ao
regime. Além disso, certas palavras foram “compactadas” para que pudessem ser
usadas em diversos sentidos. Até o pensamento era controlado. Que ninguém se
atravesse a duplopensar. Ou seja, a ter
convicções contraditórias ao partido. Nas suas casas havia monitores com câmaras
que permitiam, ao mesmo tempo, ver e ser visto. A sua vida privada era pública.
Ninguém estava sozinho. E, não fosse já isso terrivelmente assustador, ainda
tinham que assistir à propaganda do partido que passava, vezes sem conta, no
televisor. No livro, temos como exemplo a vida de Winston Smith, que tinha como
trabalho alterar documentos literários e públicos para que nunca existissem, na
história, falhas e promessas incumpridas do partido. A verdade era imposta
apenas pelo partido. Se o partido afirma que 2+2=5, então nem a matemática pode
vir dizer o contrário. Farto de ser uma ovelha com um macacão azul, tentou
fugir ao rebanho e revoltar-se contra todas as imposições do partido. Será possível?
Há tanto para dizer acerca deste livro
que nem me vou alongar muito mais. Espero que se sintam inspirados para o
ler. Penso que Orwell queria deixar bem claro que, em 1949, a sociedade podia
correr perigo caso outras posições extremistas se levantassem e tornassem eternas. Sem querer entrar em teorias da
conspiração, pergunto-me se Orwell não estaria, em parte, certo. Não em 1984. Mas
algures no futuro de agora. Neste futuro que estamos a construir. Neste futuro
que tantos estão a corromper, marginalizar e controlar. Tentam fazê-lo fechados
numa caixa. Mas nós sabemos que essa caixa é tão aberta como a janela de
esperança que queremos para a nossa vida. Será que Orwell se enganou na sua
previsão utópica? Estaremos à espera de um 2084?Espero sempre saber que 2+2=4.
Mas, mesmo assim, Big Brother is watching you.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
A Metamorfose
“Certa manhã, ao acordar após
sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso
insecto.”
A primeira frase do livro “A
Metamorfose” (1915) de Franz Kafka apresenta-nos um facto: um homem, Gregor
Samsa, que sofreu uma transformação de homem para insecto. A história tem um
carácter tão realista que quase nos esquecemos que tal é impossível. A fantasia
desaparece. É-nos apresentado um homem demasiado preso ao seu emprego,
representando, assim, a maioria da sociedade da época (e de hoje?). Um homem
alienado da realidade, atingido pelos tempos de desespero e desorientação. Quando
se transforma num bicho monstruoso, a sua rotina muda completamente. Impedido
de trabalhar, passa todo o seu tempo em casa. A sua consciência pesa. Mas não
por ele. Pela família. Mas não por amor. Por obrigação. Todos na família vivem
à sua custa. É-lhes indispensável pois dependem totalmente dos seus
rendimentos. Depois do “grande acontecimento”, essa situação muda. Gregor
torna-se um parasita que, além de não suportar as despesas, ainda dá trabalho.
A família viu-se obrigada a procurar trabalho e a preocupação com Gregor passou
a ser nula. Nem a irmã, que inicialmente cuidou dele, conseguiu resistir à sua
mudança física diária. O nojo levou-a a crer que aquele já não era o seu irmão.
Passa os dias no quarto, rodeado de excrementos. Um cenário perturbante.
Esta
obra explora o comportamento humano de uma forma inquietante. O quotidiano é
angustiante, abafado. O desejo de libertação de um emprego que odiamos, a frustração
connosco, com o mundo e com os outros transforma-nos em insectos. Ou, pelo
menos, deixa-nos no lumiar entre homem e bicho. Passamos de um “nada” para
outro “nada” isolado do mundo. Um bicho ainda sensível à música (“Seria mesmo
um animal, se a música o comovia àquele ponto?”). Um bicho que apodrece com uma
maçã cravada nas costas, como se a sua vida enquanto homem nada tivesse
significado…
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