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terça-feira, 12 de maio de 2015

Brinco de Pérola

Hoje venho falar de várias coisas acerca da mesma coisa. Estudei História da Arte durante quatro anos. No secundário, é ensinada tendo em conta uma linha temporal de períodos históricos e estilos artísticos. Discordo desse método de ensino mas isso agora não importa para nada. Quando comecei a estudar, intensivamente, o estilo Barroco (séc. XVII), deparei-me com a obra do pintor holandês Johannes Vermeer. Faz parte dos nomes mais importantes dessa época, ao lado de Rembrandt. Principalmente por ambos terem testemunhado o florescimento cultural da Holanda. Uma das principais obras de Vermeer é Rapariga com Brinco de Pérola (1665). Destaca-se o fabuloso tratamento da luz. Criou-se um enorme mistério à volta deste quadro e da rapariga nele retratada, o que tem servido de inspiração para a ficção em várias áreas.


Tracy Chevalier escreveu um livro intitulado Rapariga com Brinco de Pérola (1999). Inspirada pelo quadro, desenvolveu uma história onde envolve a rapariga com o pintor. Foi capaz de criar uma história para além da pintura. Tentou ver além dos pigmentos e inseriu Griet num ambiente misterioso e frio. Criou-lhe um nome, deu-lhe uma vida, uma família, um trabalho, um turbante e um par de brincos e pô-la a posar para Vermeer. Griet começa a trabalhar na casa do artista, como empregada. É um trabalho duro. Mais tarde, passa a ajudá-lo no seu atelier. Fica fascinada com os materiais, com os quadros, com os novos dispositivos ópticos (câmara escura) e com o próprio génio. Posa para ele e morde os lábios, com toda a força, para que pareçam mais carnudos e vermelhos. Griet representa a inocência, abusada física e psicologicamente por todos mas, também representa a inspiração de um génio, o crescer da criatividade…sendo ela, no fim de contas, apenas o seu modelo, podendo ser qualquer uma. O resto, só lendo. Aconselho a sua leitura porque, além de ficcionarmos acerca deste quadro enigmático, somos, obrigatoriamente, inseridos num contexto histórico onde a criação artística era uma realidade. Lemos descrições processuais relativamente à pintura da época que correspondem à verdade.

Ele via as coisas de uma maneira que as outras pessoas não viam, de tal modo que uma cidade na qual eu vivera a vida inteira me parecia um lugar diferente, e que uma mulher se tornava bela com a luz a incidir-lhe no rosto.

O filme (2003, Peter Webber) com o mesmo nome, foi, por sua vez, inspirado no livro. É um bom complemento à leitura. Não foge às descrições nem à simplicidade dos ambientes, antes lidos. Colin Firth, Scarlett Johansson e Cillian Murphy, nos papéis principais. Vale a pena, caso tenham interesse pelo mundo da arte!


segunda-feira, 27 de abril de 2015

Nutella

Um amigo ofereceu-me este livro. Entrei em êxtase porque sou das pessoas mais gulosas que conheço. Nunca me dou ao luxo de o ser todos os dias. Tento manter uma alimentação equilibrada e saudável. Mas não sou de extremos. Hoje em dia, resisto muito mais aos doces.  Eles chamam-me, eu olho e digo não.  Houve uma altura em que era incapaz de fazer isso. Não ia às compras sem trazer uma tablete  de chocolate, umas bombocas e umas bolachas de chocolate com chocolate à volta, por cima e por baixo e chocolate em todo o lado!!! Agora já não. Deixo esses prazeres para o(os) dia da asneira. No meu caso, os momentos da asneira. Tudo é permitido. Com este livro, sinto que esses momentos vão aumentar. Gosto imenso de nutella. Gosto imenso de nutella com tudo. Prometo não aumentar o meu nível de gulodice. Prometo só.

O livro traz receitas deliciosas e muito fáceis de fazer. São todas acompanhadas pela respectiva foto e por ilustrações fofinhas desenhadas à mão. É ideal para quem não gosta de perder tempo com sobremesas (eu gosto) e para quem gosta de partilhar momentos doces com quem tem ao lado.




segunda-feira, 20 de abril de 2015

Mansfield Park

Mansfield Park, 1814. Podia falar de qualquer um dos livros da Jane Austen. Escolhi este por ser o mais odiado por alguns leitores. Porquê? Por não ser a típica heroína austeana. Além disso, a história demora mais tempo a chegar a algum lado. Embora isto seja verdade, nunca percebi em que sentido é que o livro perde alguma coisa. Fanny Price, ainda criança, vai viver com os seus tios para Mansfield Park. Isto acontece porque os seus pais, com mais filhos, não conseguem suportar a sua educação. Longe dos irmãos e dos pais, passa a conviver com os seus primos e tios. Cresce e aprende com eles. Tem uma educação semelhante mas, ainda assim, é inferiorizada. Afinal, os seus familiares têm dinheiro. Ela não. Enquanto cresce, ao longo dos anos, tem como obrigação ajudar as tias nas tarefas domésticas. Isto é, fazer por elas. As suas primas vivem num mundo paralelo e fútil. Um dos primos tem constantemente um comportamento boémio. O outro, santo. Muita água correu até ao final do livro. Só aí encontramos respostas. Jane Austen criou personagens muito reais tendo em conta a sua época. Aborda a escravatura de um modo subtil. As críticas à sociedade inglesa, à semelhança dos outros livros, são bastante óbvias.

Fanny Price é uma rapariga tímida, frágil e submissa. Nunca aparece na linha da frente. Não é uma Elizabeth Bennet (Orgulho e Preconceito 1813). Não sai a correr de casa. Não ignora as tarefas que lhe são destinadas. Não opina, em voz alta, acerca do comportamento alheio. Não muita coisa. Vive nos seus pensamentos. É muito observadora e perspicaz. Tem a capacidade de perceber, desde logo, o bom ou mau carácter das pessoas. Vemos que ela não se engana. É muito ligada à tradição. Para ela, dar um passo à frente é, muitas vezes, um sacrifício. Sempre gostei da Fanny mas sempre desejei que ela se passasse da cabeça. Sintam-se inspirados!
Mansfield Park, filme de 1999 (trailer)

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Pi = 3,14

Se a morte anda tão chegada à vida não é por uma necessidade biológica — é por ciúme. A vida é tão linda que a morte se apaixonou por ela, e é um amor ciumento, possessivo, que tenta controlar o que pode. Mas a vida escapa a esse controle com a maior facilidade, perdendo apenas uma coisinha ou outra sem grande importância e, para ela, a tristeza não passa de uma sombra passageira de uma nuvem.
A Vida de Pi, Yann Martel 2001

A Vida de Pi (Life of Pi). Recomendo, de igual modo, o livro e o filme (Ang Lee, 2012). Primeiro, li o livro. Fiquei com vontade de ver o filme mas pensei logo que podia ser uma desilusão. Que toda a riqueza do livro iria desvanecer. Neste caso, essa ideia é totalmente errada. Claro que um livro é um livro. Bem sei. Mas um filme também é um filme. E estes dois vivem, na minha opinião, muito um do outro. Porque são igualmente ricos em imagens, descrições e sentimentos. O filme acaba por ser uma reinterpretação das imagens que já tinha lido. Mas também acrescenta elementos visuais que, por algum motivo, não consegui imaginar. Um rapaz que sobrevive a um naufrágio e, no barco salva-vidas, tem que partilhar o pouco espaço que tem com um tigre. Parece ridículo e infantil. Mas não é. Ensina-nos imenso acerca da condição humana. Da sobrevivência, da convivência, do desespero e, sobretudo, da imaginação. 
Então a morte é apaixonada pela vida. E a maneira que encontrou para a amar possessivamente, foi desafiá-la diariamente. Colocar-lhe obstáculos. Para que a vida não sobreviva. Para que a vida dê lugar à morte. Há amores assim. Amores em que se torna impossível conviver. Em que alguém tem que sair para o outro ficar. Em que o um vive para si mesmo, sem contar que o resultado sejam dois. É isso que a morte faz. Quer controlar, ser um todo, ser a única e ser completa. Já a vida, perdendo muitas batalhas, é capaz de se erguer vezes sem conta. Relativiza os problemas. Quando sofre, sofre a sério. Mas, a seguir, o sorriso já lhe ocupa a cara toda. Somos nós. Temos essa capacidade de enfrentar a morte porque não, ela não é mais forte que nós. E, até quando nos vencer, vai ser mais fraca. Porque a vida continua. A morte não.

créditos imagem : alternativemovieposters.com




domingo, 12 de abril de 2015

1984

1984 George Orwell, 1949. E se vivêssemos num mundo onde tudo o que fazemos é controlado? Um mundo onde a tecnologia e o totalitarismo dos partidos permitissem e incentivassem uma vigilância permanente. A distopia de Orwell aborda essas questões. Cria uma sociedade no ano de 1984 controlada por um regime totalitário. Os cidadãos eram manipulados através da língua. Foi criada a Novilíngua que, estando ainda em construção, tinha como principal objectivo apagar do vocabulário todas as palavras que se opusessem ao regime. Além disso, certas palavras foram “compactadas” para que pudessem ser usadas em diversos sentidos. Até o pensamento era controlado. Que ninguém se atravesse a duplopensar. Ou seja, a ter convicções contraditórias ao partido. Nas suas casas havia monitores com câmaras que permitiam, ao mesmo tempo, ver e ser visto. A sua vida privada era pública. Ninguém estava sozinho. E, não fosse já isso terrivelmente assustador, ainda tinham que assistir à propaganda do partido que passava, vezes sem conta, no televisor. No livro, temos como exemplo a vida de Winston Smith, que tinha como trabalho alterar documentos literários e públicos para que nunca existissem, na história, falhas e promessas incumpridas do partido. A verdade era imposta apenas pelo partido. Se o partido afirma que 2+2=5, então nem a matemática pode vir dizer o contrário. Farto de ser uma ovelha com um macacão azul, tentou fugir ao rebanho e revoltar-se contra todas as imposições do partido. Será possível?


Há tanto para dizer acerca deste livro que nem me vou alongar muito mais. Espero que se sintam inspirados para o ler. Penso que Orwell queria deixar bem claro que, em 1949, a sociedade podia correr perigo caso outras posições extremistas se levantassem e tornassem eternas. Sem querer entrar em teorias da conspiração, pergunto-me se Orwell não estaria, em parte, certo. Não em 1984. Mas algures no futuro de agora. Neste futuro que estamos a construir. Neste futuro que tantos estão a corromper, marginalizar e controlar. Tentam fazê-lo fechados numa caixa. Mas nós sabemos que essa caixa é tão aberta como a janela de esperança que queremos para a nossa vida. Será que Orwell se enganou na sua previsão utópica? Estaremos à espera de um 2084?Espero sempre saber que 2+2=4. Mas, mesmo assim, Big Brother is watching you.


quinta-feira, 2 de abril de 2015

A Metamorfose

“Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto.”


A primeira frase do livro “A Metamorfose” (1915) de Franz Kafka apresenta-nos um facto: um homem, Gregor Samsa, que sofreu uma transformação de homem para insecto. A história tem um carácter tão realista que quase nos esquecemos que tal é impossível. A fantasia desaparece. É-nos apresentado um homem demasiado preso ao seu emprego, representando, assim, a maioria da sociedade da época (e de hoje?). Um homem alienado da realidade, atingido pelos tempos de desespero e desorientação. Quando se transforma num bicho monstruoso, a sua rotina muda completamente. Impedido de trabalhar, passa todo o seu tempo em casa. A sua consciência pesa. Mas não por ele. Pela família. Mas não por amor. Por obrigação. Todos na família vivem à sua custa. É-lhes indispensável pois dependem totalmente dos seus rendimentos. Depois do “grande acontecimento”, essa situação muda. Gregor torna-se um parasita que, além de não suportar as despesas, ainda dá trabalho. A família viu-se obrigada a procurar trabalho e a preocupação com Gregor passou a ser nula. Nem a irmã, que inicialmente cuidou dele, conseguiu resistir à sua mudança física diária. O nojo levou-a a crer que aquele já não era o seu irmão. Passa os dias no quarto, rodeado de excrementos. Um cenário perturbante. 

Esta obra explora o comportamento humano de uma forma inquietante. O quotidiano é angustiante, abafado. O desejo de libertação de um emprego que odiamos, a frustração connosco, com o mundo e com os outros transforma-nos em insectos. Ou, pelo menos, deixa-nos no lumiar entre homem e bicho. Passamos de um “nada” para outro “nada” isolado do mundo. Um bicho ainda sensível à música (“Seria mesmo um animal, se a música o comovia àquele ponto?”). Um bicho que apodrece com uma maçã cravada nas costas, como se a sua vida enquanto homem nada tivesse significado…